
A adoção de inteligência artificial no planejamento da manufatura brasileira atravessa uma fase de transição, com níveis distintos de maturidade entre as indústrias do país. A tecnologia aparece com mais força em tarefas de previsão, análise de dados e apoio à decisão. Dados ajudam a ilustrar o cenário: segundo o 2026 State of Industrial AI Report, da Cisco, 66% das organizações industriais brasileiras pesquisadas já utilizam inteligência artificial em operações industriais em tempo real, acima dos 61% registrados globalmente.
No entanto, Adriano Picchi, gerente de negócios da DKP Consultoria, empresa brasileira com mais de 20 anos de atuação em consultoria, integração e desenvolvimento de sistemas de gestão empresarial (ERP), avalia que a tecnologia ainda é pouco comum em ambientes nos quais participe diretamente da programação da produção.
"O próximo estágio será utilizar a IA de forma contínua, acompanhando pedidos, estoques, capacidade, recursos e eventos da fábrica. Assim, o planejamento deixa gradualmente de ser periódico e passa a ser mais dinâmico e adaptativo", afirma.
Fatores que pressionam a mudança
De acordo com o executivo, a indústria opera hoje em um ambiente mais volátil, sujeito a oscilações de demanda, custos, disponibilidade de materiais e restrições de capacidade produtiva, enquanto clientes exigem prazos menores e maior confiabilidade nas entregas. Esse cenário torna os modelos tradicionais de planejamento menos eficazes diante de tantas variáveis simultâneas.
"O ERP concentra grande parte dessas informações, mas normalmente depende da análise humana para transformá-las em decisões. A IA acrescenta capacidade de interpretar grandes volumes de dados, identificar relações e simular alternativas, abrindo espaço para um planejamento mais rápido, preventivo e continuamente atualizado", explica Picchi.
O movimento também aparece nas estatísticas oficiais. A Pintec Semestral, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o uso de inteligência artificial nas indústrias com 100 ou mais empregados subiu de 16,9%, em 2022, para 41,9%, em 2024. A área de produção registrou 52%.
Impacto na rotina de gestores e equipes
Para o gerente de negócios da DKP Consultoria, a principal mudança prática não estará na substituição de pessoas, mas no deslocamento do trabalho humano da coleta e interpretação de dados para a gestão de exceções e decisões de maior valor agregado. Segundo ele, a IA poderá acompanhar pedidos, materiais, máquinas e ordens de produção, sinalizando desvios antes que se transformem em problemas maiores.
"No chão de fábrica, celulares, tablets ou dispositivos vestíveis poderão orientar o operador durante a execução. Vídeos processuais podem mostrar exatamente como determinada etapa deve ser realizada, e a visão computacional pode comparar imagens da execução com o padrão esperado", detalha.
"Na DKP estamos justamente desenvolvendo soluções por meio de IA para garantir a redução de erros humanos, agilizar processos produtivos, adequar o planejamento à realidade, facilitar a capacitação de novos colaboradores e diminuir a perda de conhecimento provocada por turnover", revela Adriano Picchi.
Previsão de demanda e programação mais integradas
Na previsão de demanda, a inteligência artificial analisa históricos de vendas, sazonalidade, carteira de pedidos e comportamento dos clientes para identificar padrões de difícil percepção pelos métodos estatísticos tradicionais. Já na programação da produção, os algoritmos combinam demanda, estoques, materiais, capacidade das máquinas, mão de obra disponível e prioridades comerciais.
"O ganho mais significativo tende a ocorrer quando planejamento e execução passam a conversar continuamente. Uma quebra de máquina, atraso de material, desvio operacional ou pedido urgente pode ser identificado e imediatamente confrontado com o plano. A IA pode avaliar impactos, simular alternativas e recomendar uma nova programação, fazendo o ERP evoluir de registro das operações para instrumento ativo de decisão", contextualiza o especialista.
Desafios de dados e de cultura organizacional
Apesar dos avanços, o caminho até a adoção plena da inteligência artificial no planejamento fabril ainda enfrenta obstáculos. Conforme Picchi, os principais desafios estão na qualidade dos dados, na integração entre sistemas, na padronização de processos e na mudança cultural das equipes, já que não basta inserir IA em ambientes nos quais informações e procedimentos ainda não estejam estruturados.
A ressalva encontra respaldo em levantamentos internacionais. A pesquisa Tendências Digitais em Operações 2026, da PwC, ouvindo 767 líderes, indica que apenas 51% das organizações estruturam uma base de dados limpa antes de escalar iniciativas digitais, e que 60% relatam perda de valor por baixa qualidade das informações.
"Um caminho importante será transformar o conhecimento operacional em conteúdo digital estruturado relacionado às etapas do ERP, permitindo que a IA oriente e verifique visualmente pontos críticos da execução, ajudando a preservar o conhecimento diante da rotação de funcionários", avalia o gerente de negócios da DKP Consultoria.
Na sua percepção, a tendência é a inteligência artificial se consolidar como uma camada entre o ERP, os gestores e a operação fabril, atuando no planejamento, na correção de desvios e no aprendizado contínuo a partir dos dados gerados pela própria indústria.
Para mais informações, basta acessar: https://dkp-it.com.br
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