
Há manifestações culturais que carregam, em seus gestos e símbolos, lições muito maiores do que aquilo que se vê à primeira vista. A Cavalhada de Poconé, tradição de origem portuguesa mantida há mais de dois séculos no coração do Pantanal mato-grossense, é uma delas. Quando o repique da caixa ecoa e os cavaleiros entram em cena, ricamente ornamentados, encenando a histórica batalha entre Cristãos e Mouros, o que se assiste não é apenas um espetáculo de cores e destreza. É uma metáfora viva sobre disputa, estratégia, pertencimento e responsabilidade coletiva, valores que encontram paralelos profundos no exercício do trabalho parlamentar.A arena e o plenário: a nobreza do contraditório
Na Cavalhada, dois exércitos se enfrentam. De um lado, o azul turquesa dos Cristãos; do outro, o vermelho vibrante dos Mouros. São lados bem definidos, cada qual com sua estratégia, suas manobras e suas convicções encenadas com lança e espada. O plenário de uma Assembleia Legislativa não é tão diferente: também ali se confrontam visões distintas, projetos divergentes e disputas legítimas pelo melhor caminho para a sociedade.
O contraditório, tanto na arena quanto no parlamento, é indispensável. Ideias precisam ser confrontadas e colocadas à prova. Contudo, a Cavalhada nos ensina uma lição preciosa: ao final do embate, todos desmontam de seus cavalos sabendo que pertencem à mesma comunidade. O adversário na pista nunca é um inimigo a ser destruído, mas um companheiro indispensável para que o espetáculo, e a própria tradição, continuem existindo. No trabalho parlamentar, essa compreensão é essencial: defender convicções com firmeza sem jamais perder de vista que, depois do debate, o estado continua sendo de todos.
Estratégia e preparação: o trabalho que antecede o espetáculo
Um dos aspectos mais reveladores da Cavalhada é que ela não acontece por improviso. A festa começa a ser construída com meses de antecedência. As famílias festeiras confeccionam artesanalmente as vestimentas, preparam os cavalos da raça pantaneira, ensaiam as manobras e transmitem o conhecimento de geração em geração. O que o público vê em poucas horas é fruto de meses de planejamento, dedicação e trabalho coletivo nos bastidores.
O trabalho parlamentar de qualidade obedece à mesma lógica. A aprovação de um projeto de lei, a articulação de uma pauta ou a conquista de um benefício para a população raramente são resultado de um gesto isolado e espontâneo. São a consequência de uma preparação minuciosa: a escuta das demandas da sociedade, o estudo técnico, a negociação paciente e a articulação com diferentes atores. Assim como na Cavalhada, o brilho visível no plenário é sustentado por um esforço invisível e contínuo nos bastidores do mandato.
Pertencimento e legado: a tradição que se passa de pai para filho
A Cavalhada de Poconé sobreviveu a séculos, inclusive a um longo período de interrupção, e ressurgiu pelas mãos de festeiros movidos pelo orgulho de pertencer àquela história. É uma herança enraizada, passada de pai para filho, em que o objetivo maior nunca foi a vitória de um lado, mas a preservação de algo que pertence a toda a comunidade. As famílias chegam a colocar faixas em frente às suas casas para sinalizar com orgulho que ali moram cavaleiros.
Esse senso de legado é, talvez, a lição mais poderosa para a política. O verdadeiro trabalho parlamentar não se mede pela vitória efêmera em uma votação, mas pela construção de um patrimônio coletivo: instituições mais fortes, leis que melhoram a vida das pessoas e uma cultura de respeito que pode ser transmitida às próximas gerações. O parlamentar que compreende isso atua não para o aplauso imediato, mas para um legado duradouro, como o festeiro que prepara hoje os jovens que conduzirão a tradição amanhã.
Quando a sociedade inteira é a vencedora
A Cavalhada de Poconé nos lembra que é possível disputar sem destruir, competir sem desrespeitar e divergir sem fragmentar a comunidade. O desenvolvimento de um município, de um estado ou de um país não acontece quando um lado vence e esmaga o outro, mas quando a sociedade inteira se torna a verdadeira vencedora.
Talvez essa seja a maior contribuição que uma tradição secular pode oferecer ao nosso tempo, tão marcado pela polarização: a grandeza de uma comunidade não está na intensidade de seus conflitos, mas em sua capacidade de transformar diferenças em convivência, competição em aprendizado e tradição em inspiração para construir um futuro comum. Que o plenário, assim como a arena pantaneira, seja sempre um espaço onde, depois do embate, todos reconheçam que pertencem à mesma história.
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